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Gestão de incêndios entra na agenda estratégica do agro: dados, tecnologia e responsabilidade jurídica em debate

  • há 1 dia
  • 6 min de leitura

A temporada de incêndios deixou de ser um problema sazonal para se tornar uma variável permanente na gestão do agronegócio. Com 278 mil focos de incêndio registrados no Brasil, em 2024, segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), e um cenário climático cada vez mais adverso em 2026, a resposta do setor produtivo precisa ser estruturada, documentada e baseada em dados. 


Foi com esse diagnóstico que a Cyan Analytics promoveu, em 28 de maio de 2026, o encontro online "Temporada de Incêndio" — um debate entre especialistas em direito ambiental, operações de campo, defesa civil e tecnologia climática.


Com duração de aproximadamente uma hora e participação aberta e gratuita, o evento reuniu especialistas e evidenciou uma mudança de paradigma: prevenir, monitorar e registrar não são mais diferenciais competitivos — são exigências operacionais e legais.


Para a cofundadora da Cyan, Majory Imai, os riscos climáticos têm se tornado cada vez mais desafiadores. “Quem opera a céu aberto está constantemente sujeito aos efeitos do clima, principalmente em um ano de El Niño, que impacta cada região de uma maneira diferente.


Nesse cenário, produtores que investem na antecipação de riscos e na prevenção do fogo saem à frente.


"Depois do fogo, quem paga essa conta?"


A advogada Vera Rezende Vidigal, especialista em direito ambiental, abriu o debate com uma provocação direta: a responsabilização por incêndios rurais mudou de lógica. Se antes o sistema jurídico se concentrava em identificar o autor do fogo, hoje a pergunta central passou a ser outra: “O que foi feito para evitar que ele acontecesse?”.


A especialista destacou o avanço do marco regulatório com a Lei nº 14.944/2024, que instituiu a Política Nacional de Manejo Integrado do Fogo (PNMIF). A norma representa uma virada na abordagem estatal: sai a lógica puramente repressiva e entra a prevenção obrigatória, com monitoramento contínuo, governança ambiental e rastreabilidade como pilares.


Ferramentas como sensoriamento remoto, imagens de satélite, mapas de calor, Cadastro Ambiental Rural (CAR) e modelagem espacial passaram a compor o arsenal técnico dos órgãos fiscalizadores — e, consequentemente, das defesas jurídicas. A ausência de registros, alertou Vera, é hoje um dos principais obstáculos para quem precisa comprovar diligência preventiva.

 “A gente tem enfrentado dificuldades na hora de fazer as defesas administrativas e judiciais pela falta de documentação”, afirmou.


O cenário regulatório tende a se tornar ainda mais técnico. Vera alertou que o Ibama e outros órgãos ambientais estão aprimorando o uso de dados digitais, inteligência artificial e integração de bases públicas para identificar omissões e emitir autuações com maior precisão. 


Segundo a especialista, mesmo que os processos de fiscalização levem tempo para avançar, os órgãos ambientais já possuem acesso a dados digitais e cruzamentos técnicos capazes de embasar futuras autuações. “O Ibama demora, mas como ele tem esses dados e está fazendo toda essa análise de dados digitais, isso vai chegar”, explicou.

A recomendação prática da especialista foi clara: elaborar planos de monitoramento, documentar treinamentos, formalizar protocolos operacionais e registrar cada ação preventiva. O fogo, cada vez mais, é uma discussão sobre dados — e a prova de diligência se torna o ativo jurídico mais valioso de uma propriedade rural.


Da câmera ao campo: como o Grupo Farias melhorou o tempo de resposta a incêndios


Thiago Nogueira, Supervisor Corporativo da Central de Operações Agrícolas (COA) do Grupo Farias, apresentou um modelo operacional que integra tecnologia, comunicação e logística para combater incêndios em operações de larga escala. O sistema é resultado de um desafio real: gerenciar múltiplas unidades com ciclos de safra distintos, em regiões com limitações de sinal e infraestrutura.


A estrutura montada pelo Grupo Farias inclui 69 câmeras instaladas e 22 torres operacionais, garantindo 88% das áreas monitoradas por câmeras e cobertura satelital de 100%. 

O fluxo de resposta começa com a identificação do foco pela plataforma da Cyan Analytics, que informa localização e rota ao COA. A partir daí, brigadas são acionadas via grupos operacionais, caminhões-pipa são deslocados e o combate é iniciado com apoio integrado.


Thiago Nogueira afirmou que a implementação da tecnologia melhorou o tempo de resposta das equipes diante dos focos de incêndio. “Com essa tecnologia implantada, nós melhoramos muito o nosso tempo de resposta”, destacou.


Além da localização em tempo real, as equipes recebem dados climáticos enviados pela plataforma — velocidade e direção do vento, precipitação e temperatura do ar —, o que permite posicionar melhor os caminhões-pipa, antecipar cenários críticos e ajustar a estratégia operacional antes do combate. 


O manuseio de diferentes informações é justamente o que possibilita reações melhor estruturadas ao fogo.

“O acesso às diversas variáveis climáticas subsidia decisões e processos operacionais a partir das análises e dos impactos dos riscos climáticos”, afirma Majory Imai. 


Segundo Thiago, as informações climáticas compartilhadas com as equipes ajudam na programação operacional e no posicionamento mais estratégico dos recursos em campo. “Nós mandamos velocidade do vento, precipitação de chuva e temperatura do ar para que a turma possa se programar”, explicou.


Thiago também sinalizou os desafios que ainda persistem na operação: ausência de sinal de celular em áreas remotas, limitações de rádio e a necessidade de monitoramento permanente em regiões com diferentes calendários agrícolas.  Para ele, a resposta a esses desafios passa pela integração contínua entre tecnologia, comunicação e preparo das equipes.


SCI no agro: organização como resposta ao caos


O Coronel Marcos De Paula Barreto, especialista em sustentabilidade pela FAESP/SENAR, apresentou o Sistema de Comando de Incidente (SCI) como ferramenta estruturante para a resposta a emergências no campo. 


O modelo, oriundo da defesa civil, organiza equipes, define responsabilidades, melhora a comunicação e agiliza decisões — e, segundo o Coronel, é diretamente aplicável ao agronegócio.

O crescimento dos incêndios rurais ampliou a necessidade de integração entre poder público, setor produtivo, órgãos de emergência e defesa civil. Nesse contexto, o SCI funciona como um protocolo comum: cada integrante conhece sua função, as informações fluem com clareza e os recursos são alocados com eficiência. 


Durante a apresentação, o Coronel destacou que o Sistema de Comando de Incidente permite organizar recursos, acelerar decisões e manter a emergência sob controle por meio de uma atuação integrada. “Cada pessoa sabe sua função, as informações fluem corretamente, os recursos são organizados, as decisões acontecem mais rápido e a emergência fica sob controle”, afirmou.


O Coronel também destacou a importância do registro das ocorrências como instrumento técnico e jurídico. A perícia de incêndio, reforçou, é indispensável para determinar causas, responsabilidades e subsidiar defesas — um ponto que converge diretamente com a abordagem jurídica apresentada anteriormente no evento. 


Segundo Marcos De Paula Barreto, o registro das ocorrências e a realização de perícia são fundamentais para verificar causas, responsabilidades e embasar futuras análises técnicas e jurídicas. “O registro da ocorrência é super importante para depois verificar se o incêndio foi criminoso ou não. Todo local precisa de perícia”, explicou.


A FAESP, representada pelo Coronel, atua na defesa de segurança jurídica para o produtor e na participação ativa do agro nas discussões regulatórias — buscando equilíbrio entre exigências ambientais e viabilidade econômica. O fortalecimento de redes regionais e o desenvolvimento de planos de contingência foram apresentados como prioridades estratégicas.


"Tecnologia não atua sozinha" — mas transforma informação em decisão


Sergio Caldas Soares, da Cyan Analytics, encerrou as apresentações com uma reflexão sobre o papel da tecnologia: ela contribui para reduzir impactos, mas depende de infraestrutura, processos e capacidade humana de interpretação. 


A plataforma da Cyan Analytics foi apresentada como uma camada de integração — que une monitoramento visual, dados climáticos e suporte à tomada de decisão em um único ambiente operacional.

Durante a apresentação, Sergio destacou que a tecnologia amplia a capacidade de tomada de decisão ao integrar informações operacionais e climáticas em tempo real.


“Tecnologia traz informação e ninguém consegue capturar todas as informações de maneira hiper rápida para gerar a tomada de decisão adequada. A plataforma da Cyan vem com esse intuito de integrar informações”, afirmou.


Sergio também ressaltou a correlação entre dados climáticos — especialmente velocidade e direção do vento — e a estratégia de combate a incêndios. 


Quanto maior a estrutura de monitoramento (câmeras, conectividade, energia, redundância), maior a especialização, a velocidade de resposta e a capacidade de decisão. Mas a tecnologia, reforçou, precisa ser acompanhada de processos: sem integração entre ferramentas e equipes, a informação não vira ação. “Existe uma correlação muito grande entre velocidade e direção do vento com estratégia de combate”, destacou.


Antecipação como requisito


O evento "Temporada de Incêndio" evidenciou que a gestão do fogo no agronegócio é, hoje, uma questão multidisciplinar. Direito, operações, defesa civil e tecnologia convergem para uma mesma conclusão: prevenir é mais eficiente — e menos custoso — do que remediar. E prevenir, no contexto atual, significa monitorar continuamente, registrar sistematicamente e decidir com base em dados.


Para a Majory, o debate reforça o posicionamento da Cyan como plataforma de inteligência climática aplicada à tomada de decisão crítica. “Traduzindo os dados climáticos em monitoramento é possível emitir alertas de incêndio, antes que o fogo atinja o ativo dos produtores agrícolas”.


Em um cenário em que o risco de incêndio se tornou variável permanente de safra, transformar dado em decisão exige monitoramento contínuo, integração operacional e capacidade de antecipação baseada em evidências.


Sobre a Cyan Analytics


A Cyan Analytics é uma empresa de inteligência climática que transforma dados técnicos e ambientais em decisões estratégicas. 


Atuamos nos segmentos de agronegócio, seguros, crédito e infraestrutura, combinando ciência climática profunda, tecnologia proprietária, inteligência artificial e monitoramento em tempo real para reduzir incerteza e proteger operações.


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